COLABORADORES
Capa Damião Silva
Foto Danilo Friedl
Assessoria Portfólio Assessoria
Superdotação não é espetáculo. É estrutura.


Damião, o que o motivou a escolher a Psicologia como profissão e a direcionar sua atuação para altas habilidades e superdotação?
A Psicologia não foi minha primeira opção de graduação foi a segunda. Durante a formação, comecei a compreender melhor minha própria história. Na infância, eu já apresentava intensidade cognitiva e emocional, com curiosidade profunda e pensamento acelerado, mas também sensação de inadequação e solidão.
Anos depois, ao trabalhar em uma grande universidade em São Paulo, reconhecida como a melhor da América Latina, percebi que, mesmo em um ambiente altamente seletivo, poucas pessoas eram identificadas formalmente com superdotação. A superdotação está presente em muitos contextos, mas ainda não é reconhecida e acompanhada da forma como deveria.
Essa constatação consolidou minha decisão de atuar na área, transformando uma vivência pessoal em compromisso profissional.
Ao longo da sua trajetória, houve algum momento decisivo que redefiniu sua forma de enxergar o desenvolvimento humano?
Sim. Ainda na época da faculdade, comecei a compreender que o desenvolvimento humano é ao mesmo tempo universal e singular. Existem marcos considerados padrão, referências que organizam o que é esperado em cada fase da vida. Mas algumas pessoas ficam à margem para mais ou para menos e isso não significa erro, significa diferença.
Percebi que não sabemos tudo sobre o potencial humano. O que foge da média nem sempre é patologia ou desvio; às vezes é apenas uma expressão diversa do desenvolvimento. O diferente sempre me atraiu a diversidade de histórias, de ritmos, de formas de pensar e sentir. Foi ali que entendi que a Psicologia não deve apenas enquadrar pessoas em padrões, mas também ampliar o olhar para aquilo que escapa deles.
Damião, como você explicaria de maneira clara o que é superdotação e quais são os principais mitos que ainda precisam ser desconstruídos?
Superdotação é a presença de capacidades naturais acima da média em uma ou mais áreas do conhecimento humano. Essas capacidades, porém, não se transformam automaticamente em realização. Elas dependem de fatores como ambiente, oportunidades, motivação, interesses e suporte emocional.
Não se trata apenas de aprender rápido. Pessoas com superdotação tendem a pensar, sentir e processar informações com maior intensidade e complexidade.
Alguns mitos ainda precisam ser superados:
“Superdotados se desenvolvem sozinhos.”
“Superdotação é apenas QI alto.”
“Se vai bem na escola, não precisa de suporte.”
Superdotação não é garantia de sucesso automático; exige reconhecimento, direção e acompanhamento para se desenvolver de forma equilibrada.

Muitos pais confundem sinais de altas habilidades com TDAH ou autismo. Na sua experiência clínica, quais são os erros mais comuns nesse processo?
O erro mais comum é interpretar intensidade como desregulação. Crianças com superdotação podem demonstrar interesses intensos e capilarizados, questionamentos constantes ou tédio diante de tarefas repetitivas, o que pode ser confundido com TDAH.
Da mesma forma, a profundidade temática, a busca por conversas mais complexas e a preferência por pares intelectualmente semelhantes podem levantar suspeitas equivocadas de autismo.
Por isso, a avaliação diferencial é essencial, para distinguir características da superdotação de outros quadros do neurodesenvolvimento.
Damião, qual é a maior dor que você percebe nas famílias quando recebem um diagnóstico ou começam a suspeitar de altas habilidades?
A insegurança. Muitas famílias não sabem como adaptar a escola, como equilibrar estímulo e proteção emocional ou como lidar com a intensidade da criança. Também há frustração ao perceber que a escola nem sempre está preparada.
Como a escola pode se tornar um ambiente mais preparado para acolher e desenvolver alunos com alto potencial intelectual e emocional?
A escola se torna mais preparada quando atua em três frentes: formação docente específica em superdotação, flexibilização curricular com propostas de enriquecimento e atenção consistente ao desenvolvimento socioemocional. Identificar o aluno sem ajustar práticas pedagógicas não produz mudança real. É necessário oferecer desafios compatíveis com o nível de aprendizagem e, ao mesmo tempo, suporte emocional. Isso exige sair da lógica da padronização absoluta e avançar para uma educação mais responsiva às diferenças individuais.
Damião, de que forma a sua produção de conteúdo nas redes sociais contribui para democratizar o acesso à informação científica?
Traduzindo ciência em linguagem acessível sem perder rigor. A superdotação ainda é cercada de estigmas e romantizações. Informação qualificada reduz desinformação e ajuda famílias e educadores a tomarem decisões mais conscientes.
Existe um caso (preservando a ética e o sigilo) que tenha marcado profundamente sua trajetória profissional?
Sem entrar em detalhes por ética, já acompanhei crianças que chegaram com baixa autoestima e sofrimento intenso por não serem compreendidas. Ver a mudança após identificação adequada e intervenção estruturada reforça a importância de um olhar técnico e humanizado.
Damião, o Brasil ainda fala pouco sobre superdotação. O que precisa mudar em termos de políticas públicas e conscientização?
Precisamos ampliar políticas públicas efetivas, formação de professores e protocolos de identificação. A superdotação é reconhecida na legislação como público da educação especial, mas ainda há subnotificação significativa.
Como você equilibra sensibilidade clínica e rigor científico no atendimento e na comunicação com o público?
Com método. A sensibilidade orienta a escuta; o rigor orienta a decisão. Avaliações estruturadas, instrumentos validados e análise criteriosa garantem precisão diagnóstica sem perder a dimensão humana.
Damião, quais sinais pais e educadores devem observar para buscar uma avaliação especializada?
Aprendizagem muito rápida, pensamento abstrato precoce, vocabulário avançado, questionamentos complexos, memória diferenciada, intensidade emocional e tédio frequente diante de tarefas pouco desafiadoras.
O que diferencia o acompanhamento psicológico de uma criança superdotada do atendimento tradicional?
O foco não está apenas na regulação emocional, mas também na gestão da intensidade cognitiva, no ajuste escolar e na prevenção de desmotivação crônica. O planejamento é individualizado e integrado à escola e à família.
Damião, qual foi o maior aprendizado que a prática clínica lhe trouxe sobre emoções e desenvolvimento humano?
Que inteligência elevada não protege contra sofrimento emocional. Muitas vezes há alta sensibilidade, perfeccionismo e senso crítico intenso. O equilíbrio entre desafio e suporte é fundamental.
Você acredita que a sociedade está preparada para lidar com a complexidade das altas habilidades ou ainda romantiza o tema?
Ainda romantiza. A imagem do “gênio” invisibiliza vulnerabilidades reais. Superdotação não significa sucesso automático, nem ausência de dificuldades.
Olhando para o futuro, Damião, como você imagina a evolução da Psicologia no apoio a indivíduos com altas habilidades nos próximos anos?
Vejo avanço na integração entre avaliação neuropsicológica, educação personalizada e desenvolvimento socioemocional. O futuro está na personalização responsável, baseada em evidências e políticas públicas mais efetivas.
Não trabalho para exaltar a superdotação nem para contê-la. Trabalho para que ela seja compreendida com responsabilidade. Porque quando a intensidade é ignorada, ela adoece; quando é romantizada, ela se distorce; mas quando é reconhecida e bem conduzida, ela se transforma em desenvolvimento consciente e contribuição real.
